
Já quase noite, cheguei em casa após um cansativo dia de trabalho. Apesar de exausto, agradecia por estar mais uma vez em meu lar, desfrutando do meu conforto e minha segurança.
Deixei minhas coisas em cima da cadeira da sala e rapidamente fui à cozinha preparar o meu jantar. Não havia muito o que escolher; uma sopa de fubá com o pão que havia comprado logo pela manhã, saciavam minha fome.
Um copo de água e nada mais. Enquanto acendia o fogo para fazer a sopa, divagava em meus pensamentos:
- Quantas pessoas nesse momento gostariam de estar no meu lugar? Protegidos do frio e preparando sua refeição. Sei que o que tenho não é muito, mas o suficiente para viver satisfeito.
Logo a sopa ficou pronta e sentei-me à mesa para jantar. Rapidamente limpei o prato e tomei o copo de água. Lavei a pequena louça que se formou na pia, e fui até o banheiro para tomar um banho quente.
Já descansado, deitei-me na sala e liguei a televisão. Não havia qualquer programa que despertasse meu interesse; então desliguei-a e fiquei ali mesmo, meditando acerca da minha vida.
Realmente, era um homem de poucas posses; morava em um barro afastado do centro e precisava tomar dois ônibus para chegar em casa, assim como percorria o mesmo trajeto para chegar ao serviço.
Pensei no meu trabalho; que, apesar de simples, era digno e daquela maneira tirava meu sustento. Minha função era frentista em um posto de combustível no centro da cidade.
Imaginava como seria minha vida se não fosse o pequeno salário que recebia, e dessa maneira conseguia manter-me. Dessa forma, tudo o que hoje tenho, veio com o suor do meu trabalho e da minha dedicação.
Não é muito; mas para mim, tenho o que preciso para viver satisfeito. Quantas pessoas têm tanto e cada vez querem mais.
Preocupam-se tanto com dinheiro, que sempre acham pouco o que recebem. Nunca estão realizados com seu trabalho; querem sempre ganhar mais e via de regra, põem defeitos nos seu colegas ou superiores.
Consideram-se cansados de tanto trabalho e tanta contrariedade. O apego aos bens materiais leva as pessoas a considerarem-se importantes pelo que têm, e não pelo que são.
Quantos deixam de comprar comida para ter roupas de grife ou simplesmente não pagam o aluguel para ter um carro do ano. Só pra impressionar os vizinhos, a família ou mesmo os colegas de trabalho.
Mas nesse mundo; percebi que, em determinadas situações, podemos e devemos aceitar condições que a vida nos oferece. Não que estejamos passando por cima de nossa dignidade; ou "engolindo sapos", como dizem.
É que o ser humano, por natureza, dificilmente pensa no futuro quando fatos negativos acontecem em sua vida. Não pensa que aquele trabalho, apesar de estressante e cansativo, traz-lhe o sustento e a oportunidade de crescer profissionalmente.
Não dá valor ao pouco que tem e cada vez quer mais, perdendo-se em sua ambição desenfreada. Mas fazer o quê? Cada um tem um modo de encarar a vida. Pelo menos posso viver de maneira digna, apesar de simples.
Aprendi a viver amando tudo o que tenho. Se posso ter minha moradia, alimentar-me de maneira adequada, se tenho saúde e disposição, pouco mais preciso para ser feliz.
A partir do momento em que percebo que tenho saúde, disposição para o trabalho, amigos verdadeiros, a família ao meu lado, um teto que me abriga, dispor de uma boa alimentação; posso considerar-me um homem plenamente realizado.
Meu horizonte está sempre ao meu alcance e nunca me perco em minhas pretensões. Ambição? Claro que tenho. Mas de maneira equilibrada, passo a passo. Se o meu destino está reservando alguma coisa boa, será em virtude de meu merecimento; e com certeza, chegará na hora certa.
Acredito que uma força superior rege nossas vidas e sempre há tempo para recomeçar. Cada dia é uma nova oportunidade e todos aqueles que se encontram desorientados em seu caminho, podem ter certeza que Deus está sempre ao nosso lado.
Não importa quantas vezes sucumbimos por não seguir a luz Divina, o que importa é querer levantar. Erguer a cabeça e seguir em frente, vendo o mundo com outros olhos.
Adormeci ali mesmo na sala. Depois de uma noite tranquila de sono, levantei-me e tomei um bom café. Após um banho relaxante, troquei-me e saí para o trabalho. Uma longa caminhada até o meu destino.
Levava no bolso apenas o dinheiro para o ônibus. A um quarteirão do ponto onde tomaria minha condução, deparei-me com uma humilde senhora que abordou-me e assim disse:
- Meu senhor, faz dois dias que eu não como; será que poderia me arrumar um trocado para comprar um pão e matar minha fome?
Pensei comigo:
- Esse é o único dinheiro que tenho para chegar até o trabalho. Se dispuser dessa quantia, como farei para chegar lá?
Sem pensar, coloquei a mão no bolso e dei o que tinha àquela senhora. Sabia que teria que ir a pé para o trabalho, pois nada mais tinha comigo.
Ela então agradeceu, abençoou-me pela minha gratidão e partiu em busca do pão que tanto queria.
Cheguei atrasado ao serviço e levei uma repreensão de meu chefe. Fazer o quê? Mas pelo menos percebi que, mesmo com minha pobreza material, ainda tinha condições de fazer feliz uma alma que nem um teto tinha.
Minha riqueza e meus valores são outros. Valiosos para mim e tão distantes para tantas pessoas que se acham poderosos e inatingíveis.
Esquecem-se de que o sol brilha para todos, mas só é aquecido aquele que tem o coração aberto para a humildade.